domingo, 22 de maio de 2011

Um pouco de História : a "cidade romana" (2)

Como referi aqui , a presença dos romanos no território onde se localiza a nossa aldeia foi citada várias vezes em artigos publicados por Abel Viana, na revista Arquivo de Beja, nas décadas de 40 e 50 do século passado.
Hoje, vou falar de uma outra estudiosa da época romana, no território designado como a "civitas" de Pax Julia. Maria da Conceição Lopes é professora na Universidade de Coimbra e arqueóloga. Sob a sua direcção têm decorrido algumas das mais importantes escavações nas últimas décadas. Neste momento, por exemplo, ela é a responsável científica pelas escavações que decorrem junto à Praça da República, onde existem vestígios do que será o grande templo romano de Beja, tão ou mais imponente do que o Templo de Diana, em Évora. Para mais informações, ver aqui e aqui .
Escavações em Beja (2011)

 A tese de doutoramento da Professora Conceição Lopes tem por título "A Cidade Romana de Beja" e foi publicada em 2003 pelo Instituto de Arqueologia da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Como anexo a essa obra foi publicado um exaustivo "Catálogo de Sítios", onde são identificados vestígios de várias épocas, na grande maioria da romana, num vasto território, que vai de Aljustrel a Sobral da Adiça e da Vidigueira a Serpa.
São 633 sítios, que incluem a capital - Pax Julia, as villae, necrópoles, vias, pontes, barragens, etc.
No que respeita a Santa Vitória, é identificada a existência de uma villa romana. É referido um tesouro de moedas referentes a períodos de vários imperadores romanos, bem como objectos de cerâmica, alicerces de casa e uma necrópole (tudo o que Abel Viana já referira antes).
Cada um dos sítios tem uma ficha. Nesta, pode ler-se : " Interpretação - Villa? e respectiva necrópole, situadas sob a aldeia de Santa Vitória? ; Observações - A construção da aldeia invalida uma pesquisa de informação mais concreta. " (in "Catálogo de Sítios", pág. 38).
No entanto, isto não significa que, um dia destes, por um mero acaso, numa obra qualquer ou num trabalho agrícola, possam surgir novos dados sobre esta villa que terá existido aqui, nomeadamente na zona da Igreja e do cemitério.
Um outro aspecto curioso tem a ver com a via (estrada) romana que ligava a capital, Pax Julia, às minas de cobre e de prata de Vipasca (Aljustrel). Conceição Lopes começa por dizer que " Da via que ligava Pax Iulia e Vipasca nada sabemos" (in "A cidade romana de Beja", pág. 82). Fala-nos, entretanto, de um miliário ( marco colocado ao longo das vias romanas, em intervalos de cerca de 1480 metros - " mil passos " ) encontrado em Santa Clara do Louredo, que pertenceria a essa via. Esta seguiria pela Mina da Juliana, até Aljustrel.
No entanto, fala-nos também de outra hipótese, avançada por Jorge Alarcão, outro professor da Universidade de Coimbra que, na sua obra "Portugal Romano", diz que essa via passaria por Santa Vitória.
Para concluirmos, podemos, então, dizer que, não obstante a lenda da "cidade romana", o mais natural é que, na nossa terra, terá existido uma villa romana, como muitas outras que existiram neste território, tal como a de Pisões, encontrada na nos anos 60 do século passado, na Herdade da Almocreva. Desta, falarei um dia destes.
Pisões - o hipocausto ( aquecimento subterrâneo das habitações )

domingo, 15 de maio de 2011

Futebol em Santa Vitória : os pioneiros

Como já aqui referi, o futebol de competição iniciou-se na nossa aldeia, em 1968, no Campeonato Distrital da FNAT ( actual INATEL). Aqui fica uma singela homenagem às duas primeiras equipas da Casa do Povo, local onde as fotos estiveram durante muitos anos. Actualmente encontram-se no Centro de Cultura, Recreio e Desporto.
Equipa de 1968/69 
Equipa de 1969/70

Um pouco de História : a "cidade romana" (1)

Desde criança que ouvi falar na cidade romana que existiu onde hoje é a nossa aldeia. Achados arqueológicos, túneis, tudo contribuía para alimentar essa lenda.

Aqui há uns anos (em 2006), no site da nossa escola essa lenda foi reproduzida da seguinte forma "Junto à fonte estava situada a cidade da Escória (cidade romana), estando para além da Igreja. A Igreja está construída em cima de alicerces da antiga cidade, por isso o chão é oco. Assim, com os tempos a cidade foi destruída e com os restos da cidade começou a ser erguida o que é agora Santa Vitória. "
Os meninos e as meninas que nessa altura frequentavam o 1º ciclo transmitiam, assim, aquilo que os seus pais ouviram aos seus avós e que estes já tinham escutado dos seus bisavós, e por aí adiante, pelos séculos fora.
À perpetuação desta lenda pelos anos fora, não serão, decerto, alheios os trabalhos arqueológicos de Abel Viana, publicados na revista Arquivo de Beja. No volume XIII, editado em 1956 (págs 141 e 142), um artigo intitulado Sepultura Romana (?) da Igreja de Santa Vitória, dá-nos conta de "...uma caixa , feita de tijolo (...) a qual tem todo o aspecto de ser uma sepultura de época romana...". Sobre essa caixa havia uma laje, onde estava gravada a seguinte inscrição : "SEPUL/TURA/de/STª VI/CTORIA" :
  
Embora não tendo a certeza, Abel Viana assenta essa hipótese no facto de, como escreve no mesmo artigo, "...Santa Vitória(...) é abundante em vestígios da dominação romana...", ainda que muitos estivessem "... desbaratados e perdidos para a arqueologia...". Fala, nomeadamente, de uma grande área coberta de sinais de alicerces de casas e de vários objectos de cerâmica, nos terrenos junto à igreja e ao cemitério. Refere, ainda, numa necrópole com, pelo menos cem metros quadrados, "destroçada" por uma charrua e de muitos objectos encontrados aquando das obras de ampliação do cemitério.
Num outro artigo, Abel Viana fala das "villae" romanas e refere esses vestígios como fazendo parte de um desses "estabelecimentos agrícolas", que terão continuado mesmo depois da queda do Império Romano, tendo sido cristianizadas e passado "... ora por épocas de prosperidade e de grandeza, ora de miséria e de abandono, conforme os benefícios da paz e as vicissitudes da guerra, das fomes, terramotos e aterradoras pestes...". De acordo com este autor, "... foi a crescente actividade da reconquista cristã que lhes vibrou o golpe de misericórdia..." Arquivo de Beja, vol. XVI, 1959, págs 38 e 39.
Ou seja, aquilo que tem sido referido como uma "cidade romana", não passaria de uma grande propriedade agrícola, a exemplo de outras que existiam na nossa região como, por exemplo, a de Pisões.